Quando se caminha em Roma pela Via dei Fori Imperiali em direção ao Coliseu, à
direita há uma sucessão de mapas em alto-relevo na parede que retratam as diversas
etapas da expansão do Império Romano e mostram quão grande este império chegou a
ser. Tão grande que era dividido em dois, cada um com sua capital, o Ocidental, Roma e
o Oriental, Constantinopla, atual Istambul.
Mas a partir do século III este império gigante passou a ser cobiçado e sofreu
várias invasões, principalmente dos povos de origem germânica, que resultaram no que é
hoje a pequena península italiana unificada por Garibaldi na segunda metade do século
XIX depois de intensas e longas batalhas contra dominantes externos e estados
Pontifícios governados pela igreja católica.
Mas haveria outras invasões. Uma das últimas teve início em 1986, e não mais em
busca de território. Era a rede de comida fast-food conhecida mundialmente pelos seus
“arcos dourados” se instalando por primeira vez em território italiano, afrontando um dos
mais sagrados costumes deste povo, a comida. E afronta maior, em plena Piazza di
Spagna, um dos lugares mais charmosos e visitados da capital romana e ao lado de uma
loja do prestigioso desenhador de moda, Valentino, que, revoltado com a invasão, disse
na época “que a chegada do restaurante havia trazido um significativo e constante ruído e
um insuportável cheiro de comida frita incrustado no ar”. E o cheiro da Itália, outrora
perfumado de jasmim, violetas e gerânios, nunca mais seria o mesmo.
Diz-se, pela sua variedade, que não existe uma única gastronomia italiana, cada
região possui os seus temperos, ingredientes, combinações e preparo. Mas uma coisa é
comum a toda Itália, a tradição e o prazer de se sentar à mesa com comida farta, em
grupos familiares ou com amigos, regada a vinho, muita conversa em tom altíssimo,
discussões sem fim e que transforma o ato simples de comer numa festa em honra ao
prazer de viver. Antipasto, Primo Piatto, Secondo Piatto, Dolce e Digestivo, pão e vinho,
assim completos são os almoços do italiano ao fim do qual se toma um ristretto, pequeno
e forte como só os italianos são capazes de preparar.
Existe uma lenda que diz que nesta hora a Itália para e tudo fica para o dopo
pomeriggio, para depois do meio-dia, depois da siesta. Não é bem assim, este costume
quase desapareceu no norte industrial e ficou restrito às cidades menores e ao sul,
caloroso, desapressado, cheio de cultura e tradições.
Em algumas ocasiões visitei amigos na Itália e pude comprovar o ritual diário de
sair para o almoço. Mas os hambúrgueres dos “arcos dourados”, apesar da resistência
ferrenha de moradores romanos, mídia escrita e falada, agentes públicos, resistiram e
contam hoje com vários restaurantes espalhados pela península. No seu rastro chegaram
outros ícones da cultura fast-food, incluindo a maior rede de pizzaria do mundo, com seu
telhado vermelho e de forma atrevida, se instalou em Nápoles, berço das mais famosas
pizzas italianas.
E, como era de se esperar, com sua sereia de duas caudas, chegou em 2018 a
maior rede mundial de cafeterias a afrontar os bons e saborosos ristrettos. E vieram os
chineses, que, nos seus pequenos mercados, vendem de tudo, até o impensável vinho e
queijo de olhinhos rasgados, deixando os deliciosos Chianti da Toscana e os irresistíveis
Grana Padano estarrecidos com tamanha insolência.
O italiano esbraveja, gesticula, mas sabe que não há o que fazer. A sua Roma que
já foi dos etruscos, dos latinos, dos césares, dos papas, de Bernini, é também do fast-
food, do café no copo de plástico e do vinho chinês. Restará ouvir Pavarotti cantando “Il
sole mio” em Lá maior em disco de vinil e lamentar um mundo que se foi.
N.A. – Homenagem a Valentino, o estilista romano apaixonado pelo vermelho, que
vestiu a rainhas e estrelas, falecido em janeiro último.
José Humberto Scandiuzzi